A ironia da “ideia fixa”
Cavour foi um dos principais responsáveis políticos pela unificação italiana e morreu poucos meses depois da proclamação do Reino da Itália [W1]. Bismarck, por sua vez, conduziu o processo de unificação alemã e continuou vivo por muitos anos [W2]. Brás usa os dois estadistas como exemplos de homens dominados por um grande projeto.
A graça está na contradição: primeiro, o narrador apresenta Cavour como prova de que uma “ideia fixa” pode matar; logo depois, admite que Bismarck não morreu. Assim, ele mesmo enfraquece sua suposta regra. A continuação — “a natureza é uma grande caprichosa e a história uma eterna loureira” — transforma a inconsistência em humor: natureza e história seriam volúveis demais para obedecer a explicações simples [1].
Isso importa porque Brás está tentando atribuir sua morte não apenas à pneumonia, mas a uma “ideia grandiosa e útil” [3]. Essa ideia é o emplasto Brás Cubas, apresentado publicamente como benefício à humanidade, embora ele confesse que sua principal motivação era ver o próprio nome divulgado — seu “amor da glória” [2]. A comparação exagerada com grandes unificadores políticos eleva comicamente seu projeto pessoal e, ao mesmo tempo, expõe sua vaidade. É um bom exemplo da mistura de “galhofa” e “melancolia” com que o próprio narrador caracteriza estas memórias [6].